
Depois de acordar de péssimo humor, num sábadão de sol, e querer que o mundo se explodisse, resolvi escrever. Ainda não decidi direito sobre o que, mas a questão é que eu quero escrever.
As férias de verão estão aí, finalmente, depois de tanto desespero e cápsulas de guaraná com energético, consegui fazer o que eu tinha que fazer para fechar o semestre. Mais uma vez férias, e mais uma vez tédio. Algumas semanas atrás eu estava esperando pelo momento de chegar em casa e poder descansar na santa paz, somente morgando na frente da TV e fazendo coisas inúteis que tanto me apetecem. Porém, mal pisei no solo sagrado do meu lar doce lar e já comecei a apresentar sintomas de depressão crônica. Acho que toda vez que meu cérebro percebe que são férias, que estou em casa (ultimamente um sentimento de “a casa da minha mãe”) e que minha rotina universitária terá que ser deixada de lado por um tempo, ele entre em choque. É depressão, na certa.
É difícil morar fora e ter que voltar para a casa dos pais nas férias, e pior ainda é saber que é a casa DOS SEUS PAIS, que não se tem aquela liberdade de fazer o que se quer, na hora que se quer, e como e com quem se quer. Nesse período tão esperado de férias, voltamos a era do colégio e temos que dar satisfação e pedir permissão até para ir ao banheiro (para não escrever cagar, que segundo minha mãe, é uma palavra feia pra uma moça fazer uso).
Foda-se. Eu escreverei e direi cagar quantas vezes achar necessário e cabível a situação. A minha única preocupação é me certificar que minha mãe não está por perto. E ter que se preocupar nas férias é uma droga, convenhamos.
O esplendor das férias é justamente não ter preocupações, não ter que estudar para provas terroristas, nem virar noites fazendo aquele trabalho que foi passado há meses atrás. Correria faz parte da vida acadêmica. Noites em claros fazendo trabalhos ou curtindo uma festa, fazem parte da vida acadêmica. Férias não! Férias me remete ao bucolismo da minha cidade interiorana, rever amigos que também estão em férias, fazer nada o dia inteiro sem nenhuma culpa na consciência; sair para curtir os velhos lugares que nunca mudam e ficar reclamando a noite inteira que eles nunca mudam, apesar de adorarmos irmos até esses lugares, justamente porque eles nunca mudam e sempre trazem lembranças.
Férias é tempo de se gabar para a família, mesmo que timidamente, que eu estudo em uma universidade pública, que aprendo – ou me confundo mais – a cada aula e a cada dia. Mostrar que estou virando uma adulta, que moro fora e consigo sobreviver longe da saia da mamãe (mesmo morando em uma república e vivendo em um caos cotidiano que faz parte dessa vida universitária).
Mas não é assim, como no meu ideal de férias, que as coisas funcionam. Como eu já citei, sair de férias agora significa regredir no tempo, voltar à dependência total de quem, durante as aulas, dependo apenas economicamente. É não ser mais dona do meu nariz por três meses, mesmo com meus vinte anos nas costas.
Mas o que mais me irrita e até mesmo envergonha, é não poder ser a mesma pessoa que eu sou lá, na faculdade, aqui, na minha casa. É praticamente inadmissível para minha mãe que eu tenha mudado, que o fato de eu ter morado seis meses fora do país, de estudar em outra cidade, de conseguir me virar com os problemas cotidianos possam ter me atingido de alguma forma. Para ela, eu sou aquela menina do colegial que estudava bastante, saia só as vezes e nos finais de semana e andava sempre com a mesma turma de amigas. Mãe, tenho uma coisa a confessar: eu mudei! Sério, eu sei pensar por mim mesma agora muito bem, descobri meus limites, dei a cara a tapa muitas vezes, e muitas vezes levei o tapa, e aprendi a continuar de pé sozinha – e, claro, com a ajuda dos amigos que descobri serem minha segunda família.
Eu queria ter coragem de dizer que sim, eu gosto de festas, eu fico bêbada nessas festas, eu me divirto horrores, eu estudo bastante também, eu tenho minha bagunça organizada e convivo muito bem com ela. Eu também falo palavrões, eu grito, eu xingo, eu me irrito com as pessoas, eu me apaixono, eu tenho rolos amorosos, eu também me decepciono com eles.
Mas eu sinto muito, eu não sou tão corajosa para dizer isso, e vocês, pais queridos, não estão e não são o tipo de pais capazes de entender isso. Sendo assim, eu vou continuar com minha cara de rabugenta durante todas as férias, até o dia da minha salvadora viagem ao Canadá, me segurando para não ser quem eu sou, e me encaixando no papel de garotinha certinha, exatamente o tipo de gente que eu acho ridícula e passível de piedade.
Tenho dito. Ou melhor, tenho escrito (com a certeza de que vocês nunca lerão isso, e mais uma vez escondida sob minha falta de coragem).










