
Nunca antes de tudo acontecer havia passado pela sua cabeça, nem por um momento, a idéia de que tudo isso poderia acontecer.
Simples assim, antes de tudo não era nem uma intenção.
Depois de tudo virou sua principal matutação, a causadora das loucuras, das borboletas no estômago, da raiva, dos dias sem conseguir comer, das mãos trêmulas prontas para afagar ou estrangular, do disparo do coração, da cegueira temporária e da certeza de ter toda a razão do mundo. Ela tinha, talvez não a razão do mundo, mas uma razão suficiente. Ainda tem.
Um disparate, ela sabia.
Ela não quis, no início. Depois, provou, e continuou não querendo, foi estranho e ruim. Aí é que não se sabe exatamente em que ponto do enredo a milonga começou a ritmar. O descompasso se acertou, para ela, e tudo começou a sonorizar melhor.
Mas a milonga não era só dela.
Toda a festa era uníssona. Escutavam a mesma música, todas elas, e o que antes podia nem ser uma intenção, se rodopiava e acontecia, bem ali no meio da arena.
Agora, toda ação sua era dolente. Se arrastava numa mescla de vontade, indecisão, raiva e devaneios. E acabava como antes, ritmando novamente.
O caso é que o desenrolar da história acontecia só pra ela, ninguém mais acompanhava, ninguém mais se entendia. O que antes nem era intenção tombou pra ser alguma coisa que lembrava uma dor no estômago com um ataque de nervos. Pra ela, ‘milongou’ o caso.
Pra todos os outros, para a outra parte da história, tudo continuava sem som. Nunca havia existido nem violão dolente, nem milonga, nem ritmo. Bom, talvez o ritmo sim, isso sim existiu, mesmo no estúpido silêncio.
Foi assim que o rádio desligou, a festa apartou, o violão se retirou e a milonga emudeceu.
Um disparate, ela sabia. Sozinha, ela resolveu esperar a próxima festa, o próximo ritmo.
Mas uma boa milonga nunca há de se esvair.