
Tem dias que nem a gente mesmo se agüenta. Hoje é um desses dias para mim. Estou mais azeda que limão verde, e pra ajudar, andei descontando em algumas pessoas. A culpa não é minha, pois eu estava quieta no meu canto, fuçando as minhas bagunças e andando de um lado pro outro feito zumbi, de pijama e falando com meus botões. Estava tudo certo, meu mau humor cozinhando comigo e um domingo chato, como a maioria dos domingos. Mas aí é que vem alguém pra cutucar, me fazer sair de casa com todo meu azedume do dia. E aí é que não prestou né.
Ninguém entendia meu humor negro, e eu não entendia a mania das pessoas, na vã tentativa de se enganarem, de quererem ser perfeitas. Perfeição, por sinal, medíocre, apática e retardada. Eu realmente ainda não saquei qual é a de certas pessoas que querem ser exatamente o que todos querem que elas sejam: mais uma cabeça – vazia – na multidão. Enfim, me perdi no meu veneno.
A questão aqui é o meu mau humor, que já me fez distribuir algumas patadas hoje. As pobres criaturas que tem a má sorte de me rodearem nesses sombrios dias de limão não têm culpa do que seja lá o que for que está se passando comigo, mas elas também ainda não aprenderam que em tais dias, ao menor sinal de azedume, o melhor é manter a distância e nem sequer me dirigir a palavra, só em casos de extrema necessidade – extrema necessidade mesmo!
Hoje, por exemplo, um domingo extremamente propício para ficar do dia inteiro enfurnada em casa, de pijama, remoendo os problemas e resmungando pelos cantos. Melhor ainda se puder fazer tudo isso sem ninguém por perto. O prazer de me auto-aborrecer é indescritível, pois assim eu me pentelho, e eu levo a patada, sem nenhum dano a terceiros. Seria perfeito, se não fosse a insistência das pessoas para me tirar da toca e consequentemente tornar o mau humor ainda maior.
Estou insuportável hoje, extremamente irritável e fazendo a maior birra com a vida. O que me consola é que o dia está acabando, e meu desafio é me manter longe de qualquer ser da raça humana, até a fase limão passar. Só preciso me concentrar na minha chatice.