quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O primo distante do Mickey - Parte II


A partir da constatação de que realmente havia um rato em casa, minha credibilidade escalou alguns degraus e eu pude dizer aquelas palavras que ninguém gosta de ouvir: eu avisei!!
Foi aí que começou a mobilização para o extermínio do invasor. Compramos daquele veneno cor-de-rosa que parece balinha e espalhamos pela casa. O rato chegou a comer bastante do tal veneno, mas mudamos de tática quando a cachorra abocanhou um pedaço de queijo recheado de veneno, o que resultou em uma visita ao nosso vizinho veterinário e seringas de água oxigenada goela abaixo da cachorra.
Mas a gota d’água foi o dia que nosso novo morador quase que me mata de susto, ao entrar na cozinha, com o maior descaramento, justo quando eu preparava um rango com o qual tinha sonhado durante a tarde inteira: um belo mexido de ovos com arroz! Foi o ratinho entrar correndo pela porta que eu abandonei panela no fogo e corri pela mesma porta na direção contrária da do rato, subindo instintivamente no sofá mais próximo e gritando feito uma retardada. Foi realmente a gota d’água. Lançamos mão de uma última cartada, compramos uma ratoeira!
Após várias tentativas e idéias de como se arma uma ratoeira, e depois de me sentir uma completa idiota pelo fato de não saber armar aquele pedaço de metal mecânico, finalmente descobrimos o segredo de armação e montamos a armadilha, com um suculento pedaço de queijo derretido dando sopa no chão da cozinha. Foi tiro e queda, amanheceu e eis que jazia um pequeno cadáver na cozinha, preso no perverso pedaço de metal mecânico.
Confesso que me ocorreu um sentimento de pena por alguns instantes, afinal, já fazia uns dois meses que dividíamos a casa e comida com o pequeno intruso, mas ao mesmo tempo veio a sensação de vitória, após várias batalhas, finalmente vencemos a guerra!
O que realmente me fez lembrar dessa história eu não sei direito, mas o fato é que, analisando agora, o acontecimento me fez pensar em algumas coisas que parecem bobeira do cotidiano. Quando é que eu pensei que teria que achar maneiras de eliminar um indesejado rato da minha casa? Geralmente sempre alguém fez esse tipo de trabalho sujo para mim, seja minha mãe, meu pai, avô. São coisas que ao primeiro olhar parecem ridículas e fáceis de resolver, mas que na prática queimam alguns bocados de neurônios, talvez o mesmo tanto de quando eu tenho que ler um Gramsci ou estudar para o seminário impossível de economia política.
É o tipo de situação que esfrega na sua cara que você não é mais a filhinha da mamãe, que agora tem que se virar sozinha e encarar a loucura nossa de cada dia, seja sorrindo, seja chorando, seja estando partida em milhões de pedaços. Virar gente grande não é só mudar de tamanho, envolve tanta coisa que se você resolver encanar em alguma pode acabar pirando. E talvez seja exatamente isso que acontece quando ficamos adultos, piramos de vez, daí sim ficamos um pouco mais preparados para o que tem lá fora. E é assim que levo essa minha vida louca vida, fazendo escolhas, que sempre significam também uma renúncia ao que não foi escolhido, aprendendo seja pelo amor ou, na maioria das vezes, pela dor.
Pois é, ninguém disse que seria fácil, mas ninguém disse também que, às vezes, poderia ser tão difícil. Enfim, quem disse que ser adulto é moleza?

“Eu choro de rir, falo besteira, penso positivo, e espero que termine.”

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